Homilia diária — Missa de domingo, 18/01/26 — Jo 1,29-34

Homilia diária — Missa de domingo, 18/01/26 — Jo 1,29-34
Irmãos e irmãs, hoje ouvimos João apontar para Jesus com palavras que atravessam séculos: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” Com essas três palavras o Batista nos dá a chave para ler toda a vida do Senhor: não se trata apenas de um título poético, mas de uma identidade salvadora que concentra em si o sentido pascal da história. O “Cordeiro” remete ao sacrifício aceito, à obediência filial que assume sobre si a culpa humana; ao mesmo tempo, anuncia a Páscoa definitiva, em que a morte se abre à vida pela entrega de Amor.
Além disso, João acrescenta que viu o Espírito descer sobre Jesus e que o próprio Deus o declarou Filho. Aqui se desenha a economia trinitária da redenção: o Pai reconhece, o Filho consuma, o Espírito manifesta.
O batismo de Jesus não é apenas rito, é epifania: a voz do céu e a pomba do Espírito confirmam publicamente aquilo que sempre foi verdade no íntimo divino, a união hipostática que possibilita a nossa filiação. Quando João testemunha, ele não fala por humanismo jornalístico, ele aponta com autoridade profética; seu relato convoca a nossa atenção e exige decisão.

A cruz não é espetáculo de derrota
Teologicamente, a expressão “tira o pecado do mundo” nos convida a uma dupla humildade. Primeira, devemos reconhecer que o pecado não é apenas uma soma de faltas individuais, mas um estado que permeia estruturas e corações; o Cordeiro vem para restaurar a criação inteira.
Segunda, devemos acolher que a solução divina passa pela kenosis, pelo esvaziamento do Filho, e não por retaliação. A cruz revela a lógica surpreendente de Deus: vencer pelo dom de si. Assim, a cruz não é espetáculo de derrota, é trono de misericórdia.
Quais são, então, as implicações práticas para nós? Primeiro, recuperar a centralidade sacramental: se Cristo é o Cordeiro que tira o pecado, a Eucaristia torna-se celebração inexcedível dessa obra; aproximemo-nos com corações examinados, confiando na eficácia do sacrifício do Senhor. Segundo, aceitar o batismo no Espírito como impulso à missão: o mesmo Espírito que desceu sobre Jesus nos transforma em testemunhas capazes de reconhecer o Salvador e de levar outros a Ele. Terceiro, viver uma conversão que não se contente com ritos exteriores, mas que reforme as escolhas cotidianas — reparar injustiças, perdoar ofensas, partilhar o pão.
Por fim, deixemo-nos interpelar pela simplicidade do testemunho de João: ver não é apenas olhar, é apontar com coragem. Se queremos reconhecer o Cordeiro, precisamos olhos despojados de interesse e mãos prontas a servir. Que o Senhor nos dê um olhar que saiba identificar Jesus no humilde, no sofredor, no sacramento, e um coração que responda ao chamado de seguir Aquele que, por amor, se fez sacrifício e nos abriu a porta da vida. Amém.

