Homilia diária — Missa de 6ª-feira, 02/01/26 — Jo 1,19-28
Homilia diária — Missa de 6ª-feira, 02/01/26 — Jo 1,19-28
O Evangelho nos coloca diante de uma cena tensa e reveladora. Sacerdotes e levitas vêm de Jerusalém para interrogar João Batista. Eles não buscam a verdade: querem controle. Eles perguntam quem João é, porque precisam encaixá-lo em categorias conhecidas. Contudo, João não aceita rótulos fáceis. Ele não se promove nem se confunde com a missão. João começa dizendo o que não é, porque só quem sabe quem não é consegue apontar com clareza para quem realmente importa.
Em seguida, João recusa os títulos que o povo espera, não é o Messias e tampouco é Elias. João Batista não é o Profeta, e aqui aparece uma lição espiritual profunda. Enquanto muitos constroem a própria identidade a partir da aparência, do cargo ou do aplauso, João constrói a sua identidade a partir da verdade. Ele não se apropria do que não lhe pertence e não ocupa o lugar de Deus. Ele sabe que a missão não é palco, é serviço.
Depois disso, João finalmente se define. Ele diz ser apenas uma voz. Não a Palavra, mas a voz, nem a luz, mas o eco. Tampouco é o centro, mas o caminho. Essa imagem carrega uma força enorme. A voz existe para desaparecer depois que a Palavra chega. Assim, João ensina que toda vocação cristã verdadeira aponta para além de si mesma. Quando alguém retém a atenção em si, algo já saiu do eixo. Quando alguém conduz ao encontro com Cristo, a missão cumpre seu papel.
Logo depois, João fala do batismo com água e faz um contraste decisivo. Ele batiza externamente, mas outro vem para transformar por dentro. Aqui, o Evangelho nos convida a ir além da religião de gestos e ritos vazios. A água lava o corpo, mas só Cristo renova o coração. A água prepara, mas o Espírito recria. Portanto, João reconhece os limites da própria ação e confia plenamente na obra que Deus realizará através do Filho.

A verdadeira humildade não diminui o ser humano
Nesse ponto, surge a frase mais forte do texto. João afirma que, no meio deles, já está alguém que eles não conhecem. Essa afirmação ecoa como um alerta para todas as gerações. Muitas vezes, Deus se faz presente, mas o coração distraído não percebe. Cristo caminha no meio do povo, mas a pressa, o orgulho e a autossuficiência cegam o olhar. O mistério não está ausente; o problema está na falta de atenção espiritual.
Além disso, João declara que não se considera digno nem de desamarrar a sandália daquele que vem. Essa atitude não nasce de falsa humildade. Ela nasce do reconhecimento da grandeza de Cristo. João entende que toda comparação cai por terra diante da santidade do Filho de Deus. Ele ensina que a verdadeira humildade não diminui o ser humano, mas o coloca na verdade. Quem se coloca no lugar certo diante de Deus cresce interiormente.
Por fim, esse Evangelho nos provoca diretamente. Ele nos obriga a perguntar se reconhecemos Cristo presente no meio de nós ou se continuamos esperando um Deus que se encaixe em nossas expectativas. Ele nos desafia a abandonar uma fé feita apenas de perguntas e a assumir uma fé que escuta, acolhe e segue. João não segurou ninguém para si. Ele preparou o caminho e saiu de cena.
Portanto, hoje, o Senhor nos chama a fazer o mesmo. Ele pede que deixemos de buscar protagonismo espiritual e aprendamos a ser voz, caminho e testemunho. Ele convida cada um a olhar com mais atenção, porque Cristo continua no meio de nós, falando baixo, caminhando perto e esperando corações disponíveis. Quem aprende a reconhecê-lo já começa a viver o Reino.

