
A fé verdadeira não busca aplauso. Ela nasce do desejo de agradar ao Pai. E isso exige silêncio, esvaziamento, humildade. Homilia de hoje – Liturgia da Missa de 5ª-feira, 03/04/25
Homilia de hoje – Missa de 5ª-feira, 03/04/25
O Evangelho de hoje nos leva a um diálogo tenso, profundo e teológico entre Jesus e os judeus. Jesus confronta a incredulidade deles, uma religiosidade vazia, sustentada por prestígio humano e por uma fé que não se abre à revelação do Pai. E é nesse contexto que Ele diz com clareza: “As Escrituras dão testemunho de mim, mas não quereis vir a mim para ter a vida eterna.”
É uma crítica dura, mas cheia de verdade. Aqueles que tinham nas mãos os textos sagrados, que conheciam a Torá, que aguardavam o Messias, eram justamente os que resistiam à presença do Filho de Deus. Eles examinavam as Escrituras, sim. Mas não para escutar a voz do Espírito. Examinavam como quem busca justificar a si mesmo, reforçar suas certezas, confirmar sua glória. Mas o sentido mais profundo da Palavra, que é conduzir ao encontro com Deus vivo, eles haviam perdido.
Jesus afirma: “Eu tenho um testemunho maior que o de João; as obras que o Pai me concedeu realizar.” O que valida a missão de Jesus não é o aplauso humano. Não é a autoridade que vem dos homens. É a fidelidade à vontade do Pai. Suas obras, sua entrega, sua cruz e sua ressurreição são o selo divino sobre tudo o que Ele é e faz. A fé cristã não nasce de palavras bonitas. Ela brota do encontro com as obras do Pai manifestas no Filho.
E então, o Senhor toca o ponto mais delicado: “Vós nunca ouvistes sua voz, nem vistes sua face, e sua palavra não encontrou morada em vós, pois não acreditais naquele que ele enviou.” Aqui está o coração do problema. A Palavra só habita onde há fé. Só frutifica onde há abertura. Eles diziam crer em Moisés, mas rejeitavam Aquele de quem Moisés falava. Jesus não desconstrói o Antigo Testamento. Ele o revela em plenitude. Ele é a Palavra feita carne. Ele é a chave das Escrituras. Recusar Jesus é fechar os olhos à própria Bíblia.
O Evangelho nos faz pensar: quantas vezes também nós corremos o risco de conhecer as palavras da fé, mas sem deixar que elas nos convertam? Quantas vezes lemos, ouvimos, meditamos… mas não deixamos que a Palavra nos incomode, nos transforme, nos leve a Cristo vivo?
Jesus ainda afirma: “Como podereis acreditar, vós que recebeis glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do único Deus?” A fé verdadeira não busca aplauso. Ela nasce do desejo de agradar ao Pai. E isso exige silêncio, esvaziamento, humildade. Quem está cheio de si não consegue crer. Quem busca apenas reconhecimento humano não suporta a luz da Verdade.
E por fim, Jesus diz algo desconcertante: “Não penseis que eu vos acusarei diante do Pai. Há alguém que vos acusa: Moisés, no qual colocais a vossa esperança.” O julgamento não virá de fora. Virá da própria incoerência de uma fé que diz crer nas Escrituras, mas rejeita Aquele que é seu cumprimento.
Meus irmãos, que hoje o Senhor encontre em nós um coração diferente. Que a Palavra encontre morada em nós e a Escritura não seja para nós um livro fechado, mas uma ponte viva para Cristo. Que nossa fé não dependa do olhar dos outros, mas da glória do único Deus, pois Ele continua a falar. E sua voz continua a chamar. Que a nossa resposta seja o silêncio que escuta, a fé que se entrega, e a vida que se abre à Verdade. Amém.