
Homilia de hoje – Liturgia da Missa de 3ª-feira, 01/04/25
Homilia de hoje – Missa de 3ª-feira, 01/04/25
Caríssimos irmãos, neste Evangelho, encontramos a profunda revelação da ação de Jesus no meio do sofrimento humano, e o modo como Ele se revela como o verdadeiro médico das nossas almas. O episódio da cura do homem na piscina de Betesda não é apenas um relato de um milagre físico, mas uma profunda lição teológica sobre a redenção e a nova criação que Cristo oferece a cada um de nós. Vamos meditar, à luz da Palavra, sobre os aspectos espirituais e teológicos que este texto nos oferece.
O cenário nos é apresentado com grande clareza: uma piscina chamada Betesda, um lugar onde muitos doentes estavam deitados, cegos, coxos e paralíticos. Esses doentes representavam a miséria da condição humana, marcada pelo sofrimento, pela dor e pela incapacidade de cura. O que chama a atenção aqui, irmãos, é que essa piscina não era apenas um local físico; ela é um símbolo da condição humana sem Cristo, a condição de um mundo que, por si só, não é capaz de se curar.
Há 38 anos, aquele homem se encontrava ali, à espera de um milagre, um gesto de cura. A palavra “38” não é mero acaso; ela ecoa uma longa espera, uma expectativa frustrada. São 38 anos em que ele tentava, sem sucesso, alcançar a cura através do método humano, do esforço próprio. É como se, por todo esse tempo, ele buscasse uma solução no movimento das águas, mas não conseguia, sempre sendo superado por outro. Ele está preso, não apenas no corpo, mas também na alma, pela falta de esperança verdadeira.
Neste momento de desesperança, surge Jesus. Ele vê o homem, e em seu olhar está contida a compaixão divina. “Queres ficar curado?”, pergunta Jesus. Essa pergunta, simples e direta, ressoou no coração do homem como um convite a algo muito mais profundo que a mera cura física. Jesus não apenas vê a condição visível do corpo, mas também o sofrimento interior da alma daquele homem.
A resposta de Jesus àquela questão — “Levanta-te, pega a tua cama e anda” — é uma ordem que ultrapassa as limitações humanas e atinge a totalidade da pessoa. Não se trata apenas de um gesto curativo, mas de uma renovação da existência inteira do homem. A palavra de Jesus é criadora. Ela recria a vida daquele que está preso na dor e no sofrimento, dando-lhe uma nova direção.
É importante observarmos que a cura se dá no sábado, um dia sagrado para os judeus. O sábado era o dia da paz e do repouso, o dia da Aliança de Deus com o Seu povo. No entanto, Jesus, ao curar neste dia, vai além da letra da lei. Ele nos revela que Ele próprio é o Senhor do sábado (cf. Mt 12,8). Jesus é aquele que traz o verdadeiro repouso, não um repouso que se limita ao descanso físico, mas o repouso espiritual, aquele que vem pela reconciliação com Deus e pela cura da alma.
Após a cura, o homem é confrontado pelos judeus. Eles questionam a sua ação de carregar a cama no sábado. Aqui vemos um contraste entre a rigidez da lei e a liberdade da graça de Cristo. Os judeus representam aqueles que se apeguem à letra da lei, enquanto Jesus, o Senhor da Lei, traz a plenitude da Lei: o amor, a misericórdia, e a cura. Jesus não despreza a lei, mas a cumpre na sua plenitude. Ele nos mostra que a verdadeira observância do sábado é permitir que a vida de Deus invada o nosso ser, curando-nos da nossa paralisia espiritual e restaurando-nos à verdadeira liberdade.
Quando o homem finalmente descobre que foi Jesus quem o curou, ele se torna um mensageiro da graça. Ele poderia ter se escondido ou agradecido em silêncio, mas ele decide contar aos judeus. Esse gesto de testemunho nos mostra que a cura que Cristo nos oferece não é algo privado, mas um dom que deve ser compartilhado com os outros. É assim também com a salvação: somos chamados a anunciar ao mundo a nossa cura, a nossa redenção, e a verdadeira liberdade que só Cristo pode dar.
No final do relato, Jesus encontra o homem novamente no Templo. Ele o exorta: “Eis que estás curado. Não voltes a pecar, para que não te aconteça coisa pior”. Este encontro final revela que a cura física não é a finalidade última da obra de Cristo. O que importa, de fato, é a cura espiritual. O pecado é a verdadeira paralisia do ser humano, a doença que vai além da carne e afeta a alma.
A exortação de Jesus é clara: o homem agora tem uma nova chance, uma nova vida, mas precisa corresponder com um novo modo de viver. A cura traz consigo uma responsabilidade. Não basta apenas a cura física ou emocional; a cura verdadeira leva à conversão e ao compromisso com a santidade. O pecado, que é a raiz do mal, deve ser evitado para que a plenitude da vida em Cristo seja realizada.
Irmãos e irmãs, este evangelho nos revela que Jesus é a fonte de toda cura. Ele cura não apenas as doenças do corpo, mas as enfermidades da alma. Ele nos oferece uma nova vida, uma vida que vai além das limitações humanas, uma vida que se encontra na obediência ao Seu chamado, que é sempre um chamado à liberdade e à santidade.
Neste tempo de graça, somos chamados a levantar-nos da paralisia do pecado, a pegar nossa cama e andar na direção do Senhor, que é o único capaz de nos dar a verdadeira paz e cura. Que possamos, assim como o homem curado, reconhecer em Jesus o Salvador e partilhar com o mundo a boa nova da salvação.
Que Deus nos conceda a graça de viver esta cura em todos os aspectos de nossas vidas, e que possamos ser sinais da Sua misericórdia para o mundo. Amém.